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Universidade de Brasília - Faculdade de Comunicação
Estética e Cultura de Massa (1997) - Prof. Eufrasio Prates
Simone Souto, Patrícia Torres, Iéri Barros Luna, Iana Sotomayor
MANGUEBIT
" Pode-se entender contracultura, a palavra, de duas maneiras:
Luís Carlos Maciel
Entendendo-se contracultura como uma nova postura em face da cultura convencional, arriscamos encaixar o movimento Manguebit na história como algo que está revolucionando o cenário musical brasileiro através de uma antropofagia cultural, inovações estéticas e tecnológicas e, talvez o mais importante, uma ideologia mangue.
O Manguebit, como movimento, surgiu em Pernambuco na cidade de Recife no ano de 1991 com o manifesto "Caranguejos com Cérebro". Este foi escrito por músicos como Chico Science, Fred Zero Quatro, o jornalista Renato Lins e outros companheiros de bar com o intuito de balançar o marasmo cultural instalado em Recife: "vamos criar um satélite de idéias, fincar uma parabólica no mangue e mostrar a cara do Brasil ".
Resgatando elementos da cultura folclórica regional como o maracatu, coco, embolada, cantiga de roda e mesclando-os com alguns ritmos da cultura pop mundial como o rock, reggae, rap, funk e hip-hop, o Manguebit recuperou uma tendência estético-musical e surpreendeu a cena com uma música de vibração irresistível, invocando o espírito de luta. Devido ao seu caráter antropofágico, aproxima-se do tropicalismo, expressão musical da década de 60, podendo ser visto como modernização de um dos movimentos mais expressivos da música popular brasileira. O Manguebit tem como seus maiores expoentes e precursores as bandas Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A .
Outra influência fundamental para o movimento é o livro "Homens Caranguejos" do sociólogo pernambucano Josué de Castro, no qual o autor compara o ciclo de vida do homem miserável ao do caranguejo, que se alimenta dos dejetos orgânicos do mangue.
Para melhor explicar o significado e a importância dos manguezais é necessário que voltemos nossos olhos para a cidade do Recife. Conhecida como "cidade estuário", passou a ter seus rios e mangues desordenadamente aterrados após a invasão dos holandeses no século XVII. Isso significa aterrar áreas de desova e criação de dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro, ou seja, um ecossistema de alta diversidade com o maior número de seres vivos por centímetro cúbico. Completando este cenário devemos citar as pontes, os seis rios que cortam a cidade, os viadutos, o lixo, os urubus e a miséria. Estes são elementos sempre presentes nas letras das músicas de Chico Science e Fred Zero Quatro.
Tudo isso resultou numa cena musical criada propositalmente com a intenção de ecoar no Brasil e, quem sabe, no resto do mundo. Daí a necessidade da atualização estética e tecnológica que fez com que os mangueboys se sentissem cidadãos do mundo; misturando ritmos regionais como o maracatu, com ritmos da música pop mundial criou-se uma ponte entre Recife e o resto do mundo. O que antes era considerado cultura popular (do "povo"), regional, agora está sendo reconhecido e valorizado. Adotou-se como visual mangue o chapéu de palha (encontrado em qualquer feira do nordeste) e óculos escuros. Surgiu uma identidade coletiva.
É claro que nada disso teria acontecido sem a influência e o poder dos meios de comunicação de massa. Chico Science admite não ter vergonha de ter bolado uma estratégia de marketing antes de chegar a uma grande gravadora.
O sucesso de Chico Science & Nação Zumbi abriu caminho para outras bandas do gênero, além incentivar a cultura como um todo em Pernambuco. Produções cinematográficas estão sendo premiadas, festivais importantes de música acontecem anualmente e grupos de maracatu se apresentam no exterior. Além disso, projetos similares ao projeto Axé na Bahia envolvem crianças pobres na música e ajudam a diminuir os índices de criminalidade em Recife.
A morte do cantor e compositor em fevereiro deste ano abalou o meio musical, mas não interrompeu o processo de efervescência cultural pelo qual passa Pernambuco, pelo contrário, desviou ainda mais as atenções para os acontecimentos da região.
O movimento Manguebit mudou o perfil do Estado, que deixou de ser lembrado apenas na época do carnaval por seus blocos de frevo e maracatu, sendo reconhecido como um grande centro de produção cultural.
MATEUS ENTER
Eu vim com a Nação Zumbi / ao seu ouvido falar / quero ver a poeira subir / e muita fumaça no ar / cheguei com meu universo / aterrizo no seu pensamento / trago as luzes dos postes nos olhos / rios e pontes no coração / Pernambuco embaixo dos pés / e minha mente na imensidão.
A música Mateus Enter faz parte do segundo álbum da banda Afrociberdelia e pode ser considerada uma boa representação da bandeira levantada pelo movimento. Demonstra a urgência de resgatar a cultura regional ("... Pernambuco em baixo dos pés..."), fazendo com que esta seja reconhecida ("... aterrizo no seu pensamento..."). Exalta a necessidade do orgulho da terra natal e da experiência individual ("... trago as luzes dos postes nos olhos / rios e pontes no coração...") e a importância de estar conectado às tendências e inovações tecnológicas correntes ("...e minha mente na imensidão).
SOBRE O MANIFESTO
O manifesto, publicado no encarte do primeiro CD de Chico Science & Nação Zumbi, é composto por três partes. A primeira delas, "Mangue - o conceito", apresenta a riqueza dos manguezais, classificados entre os ecossistemas mais produtivos do mundo. "Estima-se que duas mil espécies de animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue (...) são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza". "Manguetown - A cidade", mostra a fragilidade de Recife, cidade que após a expulsão dos holandeses no século XII, cresceu desordenadamente aterrando e destruindo seus manguezais. Ressalta que a cidade ainda vive do mito de metrópole do Nordeste, que sustentado numa cínica noção de progresso e aliado a estagnação econômica e cultural, contribuíram para agravar a miséria e o caos urbano. "... é hoje a quarta pior cidade do mundo para se viver". "Mangue - A cena", última parte, chama a atenção para a urgência de uma ação. "Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!". E apresenta a solução: "Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife". O movimento surge como uma proposta de "conectar as boas vibrações do mangue com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo uma antena parabólica enfiada na lama".